18.2.05
UM LIVRINHO ESTRANHO
por Mikhail Naimy*

Numa noite de 1924, em seu modesto apartamento nova-iorquino de terceiro andar, Kahlil Gibran entregou-me uma carta do presidente do Colorado College pedindo permissão para usar um verso do livro de Gibran chamado “O Profeta”, recentemente publicado; ele queria gravá-lo no sino da capela da instituição que dirigia. O verso era: “Ontem não é senão a memória de hoje, e Amanhã não é senão o sonho de hoje”.

Naquela época, Gibran já havia conquistado uma modesta reputação como um artista promissor em Boston, e como um promissor escritor árabe tanto em Nova Iorque quanto no Líbano. Muitas de suas histórias e outros escritos já tinham aparecido em alguns dos jornais árabes publicados em Nova Iorque, jornais que carregaram seu nome de volta aos países árabes no velho mundo onde, por fim, a geração mais jovem o aclamou como uma estrela brilhante e ascendente no firmamento da nova literatura árabe.

Não contente com o sucesso no pequeno e pouco conhecido mundo libanês, no entanto, Gibran começou a considerar seriamente a invasão do muito mais influente mundo anglo-saxão e, em 1918, publicou um pequeno livro intitulado “O Louco”. Este foi seguido, dois anos mais tarde, por outro pequeno livro chamado “O Precursor”, e depois, em 1923, por “O Profeta”, sobre o qual Gibran, com a carta na mão, me disse naquela noite: “é um livrinho estranho, Mischa”.

E de fato era. Embora com pouco mais de vinte mil palavras, místico e filosófico, “O Profeta” rapidamente começou a chamar atenção de uma forma bastante singular. Um pastor de Nova Iorque, por exemplo, começou a ler e a interpretá-lo em seus cultos. Em verdade, a reputação de Gibran espalhou-se tanto que, um dia, muito depois, ele recebeu uma carta de admiração da Rainha da Romênia. Mais tarde, durante a Segunda Guerra Mundial, as vendas de “O Profeta”, livro que nunca saiu de catálogo, aumentaram dramaticamente mais uma vez (da mesma forma que o fariam novamente nos anos 60, quando o livro foi adotado pelos movimentos estudantis).

Isso é ainda mais estranho se nos lembrarmos de que “O Profeta” é, efetivamente, uma simples coleção de aforismos – sobre o amor, o casamento, o trabalho, a morte e outros assuntos relacionados ao coração do homem – proclamados por um certo estranho em uma certa cidade.

De alguma forma, porém, Kahlil Gibran assoprou paixão naqueles versos e “O Profeta”, como resultado, é repleto das reações de uma alma apaixonada, convicta e sensível, que conhecia toda a extensão das experiências humanas – da extrema melancolia à maior exaltação – expressadas em palavras como raios de luz na escuridão.

Para mim, é claro, “O Profeta” era mais do que literatura; era também a revelação de profundos sentimentos pessoais que eu, nascido a cinqüenta milhas de Bsharri, ao pé do majestoso Monte Saneen, podia experimentar e compartilhar. Eu sabia, ou achava que sabia, que Gibran estava solitário em Nova Iorque. Eu podia, então, dividir a dor de Almustafa quando ele dizia: “Nay, não será sem um ferimento na alma que deixarei esta cidade. Longos foram os dias de dor que passei entre seus muros, e longas as noites de solidão...”

Igualmente, eu podia compartilhar sua gratidão pelas lições que uma vida em Nova Iorque pode ensinar, e pelo maravilhoso reconhecimento que ela deu a Gibran e ele soube captar tão bem: “você me deu o maior dos desejos pela vida. Certamente não há maior presente para um homem do que aquele que transforma todos os seus objetivos em lábios ressequidos, e toda a vida em uma fonte abundante”.

Eu sabia, além de tudo, que Gibran, um ano antes da publicação de “O Profeta”, planejara retornar definitivamente ao Líbano – um fato que sem dúvida aprofundou a relutância da partida que Almustafa expressava tão comoventemente. Ele comprara um pequeno monastério abandonado nas cercanias de Mar Sarkis, próximo a Bsharri, no coração das montanhas que o nutriram quando criança e quando jovem.

Na noite em que conversamos sobre seu verso num sino do Colorado, não poderíamos, é claro, saber que sete anos mais tarde, em abril de 1931, Gibran, com apenas 48, morreria inesperadamente, ou que Mar Sarkis seria, antes de seu retiro, sua tumba. Não, nós apenas sabíamos, ambos, que “O Profeta” era exatamente o que ele dissera ser: um livrinho estranho.

* Mikhail Naimy é considerado, juntamente com Gibran, um dos maiores escritores libaneses do século XX. Sua obra mais famosa é "O Livro de Mirdad".
Escrito por Confelibra as 1:52 PM

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